Tá tudo bem #3

O sofá do dia anterior

Um sofá. Uma câmera. Um projetor.

A câmera e o projetor estão alinhados em um mesmo tripé, e voltados para o sofá a uma distância aproximada de 5 metros.

A câmera capta a imagem do sofá em tempo real, e estas imagens são projetadas sobre o mesmo sofá com um delay de 24 horas.

Um programa de computação é responsável pelo gerenciamento das duas imagens: uma, o sinal de vídeo nomeado como hoje, que está sendo gravado, e outra, o arquivo de vídeo denominado ontem, que está sendo projetado. Ao final de cada dia, enquanto durar a exposição, o programa arquivará o vídeo hoje sob o nome de ontem, sobrescrevendo o vídeo ontem anterior. No dia seguinte, um novo vídeo hoje será registrado, enquanto o novo vídeo ontem será projetado. E assim sucessivamente, enquanto o sistema estiver operando.

Qual seria a equação representativa: ontem > hoje  ?

Enquanto a exposição ficar aberta à visitação, os vídeos coletados diariamente irão se sobrepor na projeção sobre o sofá. A cada dia, uma nova camada de tempo será projetada sobre o sofá, numa soma de imagens que faz coabitarem, dentro do registro da projeção, os muitos “ontens” sobre o hoje.  A imagem do sofá é captada, e depois projetada, enquanto é recaptada, e reprojetada, e mais uma vez captada, e projetada, num ciclo que só acaba quando a exposição termina.

Objetivos

O objetivo desta proposta é criar uma exposição interativa, na qual o visitante pode participar, com seu olhar, seu corpo e sua imagem. O sofá convida a sentar, descansar, conversar, refletir. O visitante, quando entra no espaço da projeção, entra também no espaço do registro, tornando-se parte do arquivo que será projetado no dia seguinte a sua visita. De forma que, se desejar conferir sua “performance” sobre o sofá, ele deverá retornar no dia seguinte, no mesmo horário, a fim de assistir, ou mesmo contracenar, com sua própria imagem.

Justificativa

É intrigante a passagem implacável do tempo. O presente, ao que o nomeamos, já passou. O passado só existe como memória, e o futuro é pura expectativa. Impalvável, e no entanto constituinte do que vivemos cotidianamente: tudo que há é duração.

O projeto começa em um dia, ao qual chamamos hoje. Afinal, não dá para começar ontem; só dá pra começar hoje. Mas no dia seguinte a hoje – amanhã – o hoje terá se tornado ontem. Ou seja: só dá para começar a exposição no segundo dia do experimento, quando teremos um hoje e um ontem.

Para ver a imagem de hoje, o visitante terá que voltar amanhã, quando o hoje tiver se tornado ontem. Hoje só poderá virar imagem amanhã. A imagem de ontem contém a imagem de anteontem, que contém a imagem de antes de anteontem, e assim até chegar ao primeiro dia em que o projeto se inicia, tornando o passado presente como imagem.

Os ontens se acumulam na tela, e quanto mais longíquos, mais esmaecida a camada na projeção. Mas a memória obedeceria a mesma lógica mecânica do arquivo?

Na falta de um gráfico próprio que represente a proposta ora em desenvolvimento, lançamos mão da espiral áurea.

Ao propor esta obra, buscamos dar forma, através de um sistema de registro e projeção de imagens, a uma reflexão sobre o tempo e a memória. Memória é arquivo? Há possibilidade de alguma objetividade na memória? Caso fosse possível a hipermnésia absoluta, seria desejável?  Compartilhamos estes questionamentos com os visitantes, em textos que serão expostos juntamente com a obra. Pensadores como Leibniz, Kant, Bergson, Russel, Derrida, Deleuze e tantos outros que se aventuraram na compreensão do fenômeno do tempo, seja no plano da filosofia, da psicologia ou da cognição, servem de referencial teórico para elaboração do projeto. O desenvolvimento do projeto pode ser acompanhado em posts aqui no blog que contém a tag #3.

Advertisements

5 thoughts on “Tá tudo bem #3

  1. Pingback: Pós uma coisa é pré outra | Tá tudo bem

  2. … Ahm eu tinha pensado de outra forma! Achei que era assim: você grava 30 frames por segundo, e cada frame sobrescreve um frame de 24 horas atrás. Assim não há um arquivo pronto a cada dia, mas há uma sobreescrita ininterrupta de instantes (frames) durante todo o processo, tipo o frame que você projeta no instante seguinte já sobrescreve o arquivo de 24 horas atrás.

  3. Conceitualmente esta programação é mais linda que a outra que nós haviamos visualizado, mas me parece mais cascuda e sujeita a bugs…

  4. curti!! até porque esse tipo de programação por frames pode potencializar o Tá tudo bem #1, que se for feito assim, pode gerar inúmeras interações quando alguém invade a câmara.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

w

Connecting to %s